-> REDUÇÃO DE DANOS/Vulnerabilidade
| Os grupos populacionais alvo de projetos de intervenção no campo da Saúde Pública, em especial nas ações de prevenção desenvolvidas no âmbito dos projetos e programas de prevenção as DST/AIDS, são considerados segundo sua situação de risco e vulnerabilidade, sendo o conceito de vulnerabilidade entendido como a pouca ou nenhuma capacidade do indivíduo ou grupo social de decidir sobre sua situação de risco. A vulnerabilidade está diretamente associada aos fatores culturais, sociais, políticos, econômicos e biológicos. Assim, o grau de vulnerabilidade de uma pessoa ou um grupo à infecção pelo HIV ou ao desenvolvimento da doença, segundo a proposição de Jonathan Mann, é avaliado a partir de três níveis, inter-relacionados. O primeiro nível é o da vulnerabilidade individual, que está relacionado com os fatores biológicos, comportamentais, psicológicos e cognitivos que interferem num maior ou menor poder para a adoção de medidas preventivas. Num segundo nível, temos a vulnerabilidade social, que é constituída pela rede de interações sociais e pelos determinantes demográficos que protegem ou expõem os grupos e os indivíduos à infecção pelo HIV ou a desenvolver aids. Por fim, a vulnerabilidade programática, que diz respeito aos bens, insumos e serviços disponibilizados para as populações por meio de políticas públicas de saúde, educação e justiça. Existe em nosso país uma falta evidente de recursos para o atendimento dos usuários de drogas, particularmente endovenosas, assim como para outros indivíduos que sofrem pelo preconceito causado pelo seu uso de drogas em relação à sociedade. Esta falta de aceitação, e conseqüente dificuldade de acesso aos meios de saúde, é em parte gerada por um descrédito por parte dos técnicos (e também dos próprios pacientes) na sua capacidade de adesão a qualquer tipo de intervenção da saúde. É então de fato impressionante que, mesmo assim, alguns pacientes ainda consigam ultrapassar uma grande seqüência de barreiras e iniciar um processo de busca de auxílio e tratamento, mesmo quando as chances lhes são absolutamente desfavoráveis. O trabalho comunitário é um momento privilegiado para a promoção da saúde, para prevenção dos riscos e dos danos relacionados ao uso e ao ambiente nos quais substâncias psicoativas são utilizadas. Mais do que nunca, é estratégico termos abordagem honesta e verdadeira para com a comunidade e a articulação de uma rede de projetos com objetivos afins, permite que instâncias de governo e da sociedade civil organizada, compartilhem as responsabilidades pelas ações desenvolvidas em suas regiões, legitimando e otimizando os recursos de cada, um dos projetos isoladamente, contribuindo para o aperfeiçoamento de tecnologias para a assistência, capacitação e prevenção. O conceito de vulnerabilidade, no entanto, não pressupõe o abandono da noção de risco. No caso da articulação entre drogas e aids, temos que ter clareza sobre os riscos reais de infecção pelo HIV a que os usuários de drogas, principalmente injetáveis, estão submetidos. Se, num primeiro momento da epidemia, o conceito de risco acabou por estigmatizar homossexuais e usuários de drogas em categorias ("grupos de risco") que só faziam ratificar o preconceito social sobre as formas de prazer e satisfação sexual que eram condenadas pela moral dominante, dificultando-lhes o acesso ao sistema de saúde, hoje, a abordagem “transdisciplinar” do risco pode trazer novas luzes sobre a questão da prevenção da aids e do uso de drogas. É a partir desta perspectiva, que somos levados a priorizar as estratégias de "redução da demanda" e "redução de danos":
As drogas mais usadas em nossa sociedade são justamente aquelas que se comercializam livremente, como as bebidas alcoólicas, o cigarro e os medicamentos como os calmantes e as fórmulas para emagrecimento. Seus usos são intensamente estimulados e estão intimamente associados aos maiores problemas de saúde pública em nosso país. Apesar disso, a grande maioria das pessoas não as reconhece como tal e não estão preparadas para lidar com a prevenção dos riscos e dos danos ligados ao uso abusivo dessas substâncias. Isso vem ao encontro do que já sabemos: uma pessoa alcoolizada ou sob efeito de outras drogas, tem a capacidade de julgamento e reflexos alterados. E, que, nestas circunstâncias, pode se abster de cuidados em relação ao sexo seguro, isto é não usar preservativo nas relações sexuais. E sabemos como isso é comum. Em casos como esses quais a prevenção possível? O que devemos prevenir primeiro? Inicialmente, podemos nos orientar sobre a prioridade frente a esta situação. Vejamos: uma pessoa alterada pelo uso de alguma droga e que se encontre em situação favorável a ter uma relação sexual. O que podemos fazer efetivamente? Certamente não será dando uma aula sobre os malefícios das drogas. O que nos resta é tentar convencê-la a usar preservativo e, se possível, disponibilizá-lo ao par, com um forte apelo para que o utilizem. Neste caso identificamos dois riscos. Um mais imediato que se refere à possível infecção por uma DST, caso se consume o sexo desprotegido. E se uma das pessoas estiver infectada pelo HIV? A outra situação está relacionada ao uso indevido de uma droga. Neste caso, a pessoa poderá ser abordada em momento mais oportuno, em que se tenha a oportunidade de esclarecer as motivações, as percepções sobre o uso da droga e as reais condições para o tratamento, se for o caso. Neste contexto, podemos valer-nos do próprio exemplo do risco do sexo desprotegido para apoiar a nossa intervenção. |